terça-feira, 16 de outubro de 2018




MANIFESTO DA MONTANHA

(ou aquilo que há-de sobrar, mesmo depois de mortos todos os deuses)

Naquele dia, ao ver o povo que o aguardava, o filósofo subiu a um monte. Então tomou a palavra e começou a dizer:
Ainda que eu falasse todas as línguas dos homens e dos outros seres, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a crença, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria.
O Amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o Amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O Amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência vazia, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a crença, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.
Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino da Justiça.
Felizes os que choram, porque serão consolados.
Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração, porque verão a Verdade.
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos da Verdade.
Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Justos.
Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por causa da Liberdade. Exultai e alegrai-vos, porque, no fim, a Justiça triunfará e grande será a vossa recompensa; pois também assim perseguiram os homens que vos precederam.
Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, se alcance a Verdade e a Justiça.
Não penseis que vim revogar a Lei ou os Governantes. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. Porque em verdade vos digo: Até que passem os tempos, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que a Justiça triunfe.
Portanto, se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Justiça. Mas aquele que os praticar e ensinar, esse será grande no Reino da Justiça. Porque e a vossa Justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Justos.
Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu semelhante será réu perante o tribunal; quem lhe chamar ‘imbecil’ será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar ‘louco’ será réu perpétuamente.
Se fores, portanto, praticar a Solidariedade e ali te recordares de que o teu semelhante tem alguma coisa contra ti, vai primeiro reconciliar-te com o teu semelhante; depois, volta para praticar a solidariedade com os demais. Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.
Do mesmo modo, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás diante da Justiça os teus juramentos. Eu, porém, digo-vos: Não jureis de maneira nenhuma: nem pela Justiça, que serve aos homens, nem pela Terra, que é o estrado dos seus pés, nem pela cidade dos homens, que é onde vive quem te governa. não jures pela tua cabeça, porque não tens poder de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito da mentira.
Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.
Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e atendei os que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis Justiça, pois é ela que faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os opressores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? E, se saudais somente os vossos semelhantes, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os que crêem na Verdade?
Portanto, sede perfeitos como é perfeita a Justiça.
Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis não alcançareis a Justiça.
Quando, pois, deres oferecimentos, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nos templos e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Quando deres oferecimentos, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que o teu oferecimento permaneça em segredo; e a Justiça, que vê o oculto, há-de premiar-te.
Quando acreditardes num Deus e orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nos templos e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Deus, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te. Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Deus sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também a Justiça vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também a Justiça não vos não perdoará as vossas.»
Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros nos valores humanos, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.
A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. Portanto, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas! Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Justiça e ao dinheiro.»
Por isso vos digo: Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Porventura não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e a Natureza alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas?
Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se a Justiça veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca esperança?
Não vos preocupeis, dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?’ Os cépticos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, a Justiça bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro essa justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.
Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu semelhante: ‘Deixa-me tirar o argueiro da tua vista’, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu semelhante.»
Não deis as coisas mais valiosas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés e, acometendo-vos, vos despedacem.
Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrareis; batei, e hão-de abrir-vos. Pois, quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão-de abrir. Qual de vós, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? Ora bem, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais a Justiça dará coisas boas àqueles que lhas pedirem.
Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto deverá ser a vossa primeira Lei.
Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Como é estreita a porta e quão apertado é o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram!
Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos, os conhecereis. Porventura podem colher-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Toda a árvore boa dá bons frutos e toda a árvore má dá maus frutos. A árvore boa não pode dar maus frutos nem a árvore má, dar bons frutos. Toda a árvore que não dá bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Pelos frutos, pois, os conhecereis.»
Nem todo o que me diz: ‘Justiça, Justiça’ entrará no Reino da Justiça, mas sim aquele que age de acordo com ela.
Todo aquele que escuta estas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; mas não caiu, porque estava fundada sobre a rocha.
Porém, todo aquele que escuta estas palavras e não as põe em prática poderá comparar-se ao insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se, e grande foi a sua ruína.
Quando o filósofo acabou de falar, o povo ficou vivamente impressionado com os seus ensinamentos, porque Ele ensinava-os como quem possui autoridade e não como os doutores da Lei.
(adaptado de Mateus, 5-7 e Coríntios 13)


segunda-feira, 27 de junho de 2016

O VÍRUS DO RIDÍCULO



O VÍRUS DO RIDÍCULO


Caro leitor ateu,

Vamos estabelecer um ponto de partida respeitando duas regras básicas para quem quer dialogar contigo: «1.ª) Este diálogo não tem como alvo a conversão, mas a compreensão. Nisto se distingue da evangelização, da missão. 2.ª) De acordo com isso, neste diálogo, ambas as partes permanecem deliberadamente na sua identidade própria, que, no diálogo, não põem em questão nem para si mesmo nem para os outros.» (Bento XVI (2012))[i] Neste sentido, nem tu pretenderás tornar-me ateu, nem eu tentarei converter-te ao que quer que seja. Ok?

Assim sendo, considerando a imagem acima, gostaria de te convidar a reflectir no seguinte:

- O que é que separa a inteligência superior da superioridade intelectual?

Salvo melhor opinião, a inteligência superior distingue-se por não se preocupar com a demonstração que é superior. Vive, sem precisar de anunciar aos outros que existem pessoas que não são assim tão inteligentes. Quando o faz, transpõe a barreira da superioridade intelectual e atribui a si própria a missão de demonstrar que produz melhores conclusões do que as dos outros. Ainda assim, na superioridade intelectual, há duas formas de estar perante os outros: a) Em diálogo, expondo argumentos em torno dos factos de que se dispõe, procurando que as conclusões diversas dos outros intelectos a que chegou possam ser alcançadas também por estes; b) Em troça, onde o objectivo continua a ser a demonstração dessas conclusões, não já pelo exercício argumentativo, mas antes pelo esforço em apresentar, face a um absurdo evidente, que existe uma falha hilariante no argumento alheio.

Ao dedicar-se à derradeira destas práticas - a troça - o superior intelectual já não se preocupa com a força racional dos argumentos mas com o peso emocional dos sentimentos e das pulsões sociais que todo o homem sente perante o seu semelhante. Assim, ao invés de abordar a dialéctica argumentativa do outro, decompondo-a com a força dos argumentos lógicos e bem demonstrados, prefere o ataque ao comportamento alheio, confrontando-o com a ideia do ridículo. O outro, de acordo com a tese da superioridade intelectual, ao tornar patente e visível determinado comportamento que é por demais absurdo, incorre em motivo de riso perante os outros. Riso esse, que por força das circunstâncias da própria prática do sujeito - o exercício da devoção, no caso vertente -  pretendia ser uma demonstração  de respeito e não uma mera brincadeira susceptível de tratamento jocoso. Ora, ao não perceber que o seu comportamento é ridículo e ao exteriorizar esse seu (supostamente) comportamento respeitoso, o outro incorre não só na troça perante a jocosidade da sua conduta mas também na estupidez. Na estupidez, porque não compreende a diferença entre respeito e brincadeira. Aquilo que ele pretendia levar a sério não pode ser tido como tal. E, por isso mesmo, ele é estúpido. Ou seja, é privado da inteligência que distingue a seriedade do mundo da fantasia. E essa mesma estupidez e ridículo, no entendimento da superioridade intelectual, não são susceptíveis de permanecer na esfera privada de cada um mas têm de ser para o domínio público. Porquê?

Por maioria de razão (e não de emoção) há três interpretações possíveis para a necessidade de se evidenciar publicamente um comportamento alheio. Em primeira instância, para o denunciar, porque está fora dos padrões sociais e culturais aceites e deve merecer pública censura, e para o influenciar, porque a prática do absurdo e da estupidez não facilitam a identificação social do sujeito, e subentende-se que ele, o referido sujeito, apesar de praticar a estupidez, deve ter raciocínio suficiente para perceber isso mesmo. Estas duas interpretações (a denúncia e a influência) podendo ser concomitantes, não são necessariamente negativas por si próprias pois buscam aquilo que o superior intelectual acha que é melhor para o sujeito: a abstenção de prática do absurdo e o refreamento da estupidez que deve permanecer ínsita e não exteriorizada e independentemente de poder ou não ser combatida ou reduzida no cerne mental do seu detentor.  Contudo, se à denúncia e à influência se aliar à troça, como é o caso vertente, procurando tornar hilariante a prática do sujeito, exerce-se aquela busca de glória pessoal  que Thomas Hobbes considerava ser a causa por detrás do humor e do divertimento. Ou seja, o riso e a gargalhada é uma reacção que a superioridade intelectual manifesta e que age pela comparação, tida por favorável, entre inteligência superior e os menos afortunados de intelecto. Assim, em segunda instância, já não basta a denúncia e a influência, mas também há que recorrer a uma terceira via de interpretação, a necessidade de vitória.

Mas, a vitória, por natureza, implica um combate. E, um combate utiliza armas para se produzir essa mesma vitória. Logo, a troça, ao ser utilizada para produzir a vitória, é uma arma. E as armas são sempre agressivas porque esgotam a sua utilidade ao provocar danos ao outro, neste caso conduzido à figura de um outro-adversário por se tratar de um combate. Danos esses não necessariamente físicos mas também psicológicos. No caso em apreço, a troça (pois que apela ao ridículo e alega a estupidez de uma prática), provoca o seu dano no sentimento de pertença (de identidade social) do indivíduo, que assim é confrontado com a existência de um dano na sua relação com os outros. O resultado obtido, a vitória sobre a prática devocional, será necessariamente produzida pela sua extinção por absurda, ridícula e estúpida.

Ao longo da nossa história têm sido sucessivos os exemplos em que a agressividade procura estabelecer um determinado resultado político-social ao apresentar alguns factos (mas emitindo outros) com o objectivo de encorajar uma determinada conclusão e apelando ao elemento emocional (e não racional) das mensagens que apresenta. Edward Bernays, em 1928, apelidou este fenómeno de Propaganda.

 A Propaganda está presente em todas as correntes de pensamento. Mesmo nas da religião e do Ateísmo. De um lado e do outro esgrimem-se argumentos que apelam quer à tolerância (o respeito, não pelo comportamento eventualmente absurdo, ridículo e estúpido de quem o pratica, mas pelo direito que alguém tem de o fazer sem interferir ou ser interferido pelos outros), quer à intolerância (os que não aceitam que certas práticas devam ser respeitadas). Fixando-nos na figura do pensamento ateísta, de onde deriva o cartoon em apreço, podemos encontrar exemplos de tolerância ou de intolerância, consoante atendamos aos seus argumentos de base e à forma como pretendem vê-los vingar na sociedade. No campo da tolerância ateísta produzem-se comentários que até um teísta com idêntica postura intelectual tem de aceitar como válidos para início de uma dialéctica construtiva:

«As religiões são fenómenos sociológicos penetrantes e os mitos religiosos têm persistido, longamente, na história humana. Apesar do facto de os seres humanos terem vindo a considerar as religiões como forma de elevação e consolo, não consideramos que suas afirmações teológicas sejam verdadeiras. As religiões têm dado tantos contributos negativos como positivos para o desenvolvimento da civilização humana. Embora tenham ajudado a construir hospitais e escolas e, no seu melhor, terem estimulado o espírito do amor e caridade, muitas causaram também sofrimento humano ao serem intolerantes com aqueles que não aceitaram os seus dogmas ou credos.» (Kurtz & Wilson (1973))[ii].

No segundo caso, o da intolerância ateísta, são muitos os exemplos daqueles que não se limitam a negar a experiência sobrenatural mas também põem em causa a subsistência da própria religião, enquanto «fenómeno sociológico» ou até enquanto «experiência que redirecciona e dá sentido à vida do ser humano» (Kurtz & Wilson (1973), idem), por considerarem que a religião tem um papel pernicioso na vida dos homens e das sociedades onde está presente e que compete a estes (e a estas) não se "acomodarem" perante a presença deste elemento tido por tóxico. «Religion poisons everything», como defende Hitchens perante o seu público (Hitchens (2007))[iii].

Na sequência do 11 de Setembro, no seu best-seller de 2004, «The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason», Sam Harris escrevia o seguinte:  «I hope to show that the very ideal of religious tolerance—born of the notion that every human being should be free to believe whatever he wants about God—is one of the principal forces driving us toward the abyss”» [iv]. Neste texto, mesmo utilizando metáforas muito ao jeito da religião (e.g. "abyss", que pode ser confundido com o local de danação de tantas crenças, o Inferno) o autor defende aquilo que se estende pelo resto do seu livro (e de tantos outros) e que é a ideia de terminar com a tolerância perante a religião, tida como fenómeno gerador de danos irreparáveis como será o da queda num qualquer abismo, real ou metafórico.

Ou seja, o que mudou não foram os argumentos (Deus não existe) mas sim a atitude perante a religião (a prática religiosa não deve ser tolerada). Neste domínio, como é lógico, há duas formas de tentar fazer valer os argumentos. O primeiro, o do diálogo intelectual, teria por objectivo  converter livremente a mente do praticante religioso para a  perniciosidade da sua prática devocional. Ou seja, transformar o devoto por dentro, retirando-lhe o argumento e a vontade de prosseguir na senda religiosa. Este argumento serve-se da inteligência superior e pretende tão somente utilizar a razão para alcançar a "verdade". Procura servir de inspiração a quem não tem os neurónios tão musculados para que possa também alcançar a sobredita "verdade". É um tipo de proselitismo perfeitamente legítimo e que em vez de apelar à adesão voluntária a uma religião, bem pelo contrário, procura fazer vingar uma ideia: o impacto negativo da prática religiosa perante si próprio e perante os outros. É esta a verdade que se pretende propagar. Não a inexistência de Deus que já nem sequer faz parte dos argumentos. Não se contraria a prática devocional por ausência do seu objecto mas sim pelas suas consequências nefastas. No segundo caso, a dialéctica é substituída pelo humor. Não se apela à compreensão voluntária dos argumentos mas ao juízo social em torno de uma prática que se tem por absurda: a devoção religiosa. O raciocínio e a vontade do praticante religioso já não são confrontados com a "verdade" mas são antes expostos apelando ao ridículo, ao absurdo e à estupidez (por levar a sério algo que obviamente não existe) de quem segue uma prática religiosa. E nada melhor para expor ao ridículo do que pôr a nu as contradições na conduta (voltaremos ao "nu" mais à frente). É o que em lógica se chama o argumento «ad hominem». Não se ataca aquilo em que o homem acredita, mas o próprio homem que acredita. Afinal, que credibilidade nos merece alguém que considera o Batman uma personagem de ficção e se prostra diante de uma Cruz vazia? Descredibilizando o praticante, assim se descredibiliza a prática em si. Já não é necessário o lento diálogo em torno da existência de Deus; basta a denúncia sobre a prática religiosa, acompanhada pela exposição ao ridículo, para se produzir a influência necessária que é o abandono da mesma.

Ora, tudo isto nos traz uma dificuldade suplementar. Se já não importa conhecer, analisar e confrontar as raízes do fenómeno religioso, ou seja a existência de Deus, como poderemos nós, de boa fé, afrontar as suas consequências, ou seja, a prática religiosa? Será porventura possível pôr em causa as marés sem negar primeiro o mar que as provoca? Ou, numa abordagem mais consensual, será possível fazer negar o amor de uma mãe, mostrando-o como absurdo, ridículo e estúpido, sem sequer nos preocuparmos em demonstrar que o filho objecto desse mesmo "amor" é uma criatura inexistente ou desprezível? Possível é, certamente. Basta considerarmos que os outros devem acreditar naquilo que lhes queremos transmitir sem necessidade de demonstração. Porque somos mais inteligentes. Porque somos superiores. Em suma, porque temos uma superioridade intelectual que produz argumentos que não necessitam de demonstração. Ou seja, os outros devem acreditar em nós, não pela racionalidade dos nossos argumentos, mas por uma questão de fé nas nossas qualidades intelectuais. A necessidade de fé é um pormenor interessante perante a essência do postulado ateísta. Não vos parece?

Continuando. Assim, de acordo com esta acepção, já não se mostra necessário sequer confrontar as histórias por detrás de Batman e da Cruz para se tentar estabelecer onde é que estão as eventuais semelhanças entre estes "mitos". Que é por aí que uma boa argumentação deveria ter começado. Mitos estes,  que justificam que seja absurdo, ridículo e estúpido o colocar em causa a primeira história (o Batman) enquanto se acredita, pior ainda, enquanto se presta homenagem à segunda narrativa (a Cruz). É esta a mensagem de fundo do cartoon agora analisado.

A melhor forma de recuperar o argumento da inferioridade intelectual da prática religiosa é o retomar as palavras de Karl Jung “a base fundamental para a religião é o desamparo infantil[v]. Ou seja, na fragilidade do raciocínio da infância se hão-de encontrar as raízes da devoção religiosa. No mesmo lugar onde se encontram as histórias do Batman. Então, se uma e outra têm a mesma origem, no imaginário da criança que se sente insegura, para quê distinguir as duas histórias como o pressuposto crente faz no cartoon? Eis a essência da questão colocada por este.

Mas é precisamente aqui que o argumento incorre em algumas questões: 1.ª A história de Batman e da Cruz são semelhantes? 2.ª São ambas personagens de ficção, ou da realidade? 3.ª A mensagem transmitida é a mesma?

E, por último,

4.ª Mesmo que sejam semelhantes  é o apelo à necessidade de identidade social que fará com que a prática devocional seja preterida, por ser absurda, ridícula e estúpida? 5.ª Ou será preferível utilizar o (eventual) argumento racional para que se destrua, de vez, a prática religiosa por inexistência superveniente do seu objecto devocional, ao invés de se ridicularizarem as suas manifestações e tratando-nos como criancinhas incapazes de discernir a verdade?

Na minha opinião pessoal prefiro a abordagem de Russell. Nunca pretendeu pôr em causa a tolerância perante quem pratica uma determinada religião. Pretendeu, tão somente, pôr em causa o preconceito de quem não aceita a refutação das suas «verdades». Seja porque elas são inalcançáveis para lá da demonstração, seja porque essa pessoa só encontra o vazio onde os outros vêm alguma coisa:

«Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos cépticos refutar os dogmas apresentados — em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice.» (Russell (1952)) [vi].

Efectivamente, não existe qualquer deficiência visível no pensamento de Russell. Do mesmo modo, não só é impossível demonstrar a presença do bule de chá chinês como também, a própria ciência no seu estado da arte,  se encontra desprovida de meios para  provar a sua inexistência. Agora, não compete aos primeiros, aqueles que não acreditam no bule de chá chinês, gozar com os segundos (os que acreditam no bule de chá chinês) só porque a simples ideia de um bule de chá chinês é potencialmente hilariante. Há muitas coisas que são verdadeiras e hilariantes. Por exemplo, ninguém consegue fazer cócegas a si mesmo (fato demonstrado e que tem a ver com o nosso cerebelo). Compete, isto sim, aos primeiros, aqueles que não acreditam no bule de chá chinês, demonstrar que algo em que os outros crêem é desprovido de sentido por inutilidade superveniente (inexistência do bule, neste caso) ou por força da comprovação dos efectivos males que provoca acreditar na existência do bule. Não pelo apelo à ridicularização em torno do bule. Estamos saciados? Ou é precisa mais uma chávena de chá?

Voltando um bocadinho atrás e já que estamos a falar do Batman e da Cruz, colocando-as no mesmo patamar da conversa, gostava de recordar uma pequena história. Numa das novelas de ficção científica de C. S. Lewis («Aquela Força Medonha», 1945) há uma cena em que um activista não-religioso, Mark, recebe instruções para pisotear um crucifixo muito grande, como parte do seu exercício em prol da não-religiosidade. Visto que Mark é um não-Cristão, ele fica espantado com a necessidade de se proceder a esse exercício e considera que este é, por si só, um autêntico acto de superstição. O professor que conduz o exercício, o Senhor Frost, estabelece com ele um diálogo bastante interessante e que explica muito bem esta forma de se extirpar a religião da sociedade:

«Meanwhile, in the Objective Room, something like a crisis had developed. As soon as they arrived there Mark saw that the table had been drawn back. On the floor lay a crucifix, almost life-size, a work in the Spanish tradition, ghastly and realistic. " We have half an hour to pursue our exercises," said Frost. Then he instructed Mark to trample on it and insult it in other ways. Now, whereas Jane had abandoned Christianity in early childhood, along with fairies and Santa Claus, Mark had never believed it at all. At this moment, therefore, it crossed his mind for the first time that there might conceivably be something in it. Frost, who was watching him carefully, knew perfectly well that this might be the result of the present experiment. But he had no choice. Whether he wished it or not, this sort of thing was part of the initiation. " But, look here," said Mark. " What is it? " said Frost. " Pray be quick." " This," said Mark, " this is all surely a pure superstition." "Well?" " Well, if so, what is there objective about stamping on the face? Isn't it just as subjective to spit on a thing like this as to worship it? " " That is superficial. If you had been brought up in a non-Christian society, you would not be asked to do this. Of course it is a superstition: but it is that particular superstition which has pressed upon our society for many centuries. It can be experimentally shown that it still forms a dominant system in the subconscious of many whose conscious thought appears to be wholly liberated. An explicit action in the reverse direction is therefore a necessary step towards complete objectivity. We find in practice that it cannot be dispensed with."» (Russell (1952))[vii].

Como se vê, pelo exemplo em apreço, a atitude perante uma Cruz tanto pode assumir a forma de devoção contemplativa  como de devoção destrutiva. Tudo depende do tipo de convicção de quem a pratica. Subsiste, contudo, um factor que une ambas as condutas diametralmente opostas. Trata-se da necessidade de adoptar comportamentos em torno dos símbolos, enquanto expressão de um determinado sentimento que eles nos inspiram. E a forma que se encontra para eliminar aquilo que se considera ser um mito pode, e acaba por ser no caso vertente, tão supersticiosa como a devoção ao suposto mito em causa.

 Neste sentido, ao pretender encenar a destruição da Cruz, enquanto expressão devocional de toda uma comunidade (a Cristã), nada impede que ela não se faça por formas mais virtuais como sejam a sua submissão ao ridículo, por parte de uma outra comunidade (a ateia). Não se pisoteia a Cruz fisicamente mas tenta-se influenciar a atitude perante ela para que se produza um afastamento, uma indiferença ou até uma mudança de sentimento, o que vai dar ao mesmo. É um comportamento meramente grupal. Os ateus não gozam com o ateísmo, pois consideram-no uma coisa séria. Mas gozam com a religião pois consideram-na uma coisa digna de chacota. Aliás, quanto mais gozarem, mais demonstram a sua superioridade intelectual e se afirmam no seio da comunidade que aprecia esse mesmo gozo. também aqui se coloca a questão da identidade social. Como afirma o conhecido ateu Herman Mehta «We should absolutely mock religion»[viii]. A religião, nem que seja por uma necessidade de reconhecimento inter pares,  é assim o "veneno" que se deve atacar não por argumentos racionais mas por piadas, que recebem bom acolhimento e predispõem à aceitação grupal por parte de quem a produz. É um bocado a ideia do bobo da corte, que era o mais inteligente habitante do castelo, e que encontrava a sua identificação no meio envolvente pela finura e mordacidade dos seus comentários. Não por encetar diálogos filosóficos ou teológicos. Não. Pura e simplesmente porque adaptava o seu discurso a quem ele próprio considerava que só os aceitaria mediante argumentos que apelam ao sentimento. Neste caso a piada sobre os outros. Porque os outros, naturalmente, não eram tão inteligentes como o bobo. Não perceberiam se o bobo utilizasse argumentos sérios e inteligentes. Mas, o bobo precisava deles para viver. E, não queria ser expulso por ser maçador. Queria sobreviver e ser recompensado por ser divertido. Escreve John Loftus:

«we have earned the right to use it because we have produced the arguments. That is, because we know Christianity is a delusion, and since deluded people cannot usually be argued out of their faith because they were never argued into it in the first place, the use of persuasion techniques like ridicule are rationally justifiable. So satire, ridicule and mockery are weapons that should be in our arsenal in this important cultural war of ideas (...) Isn't using laughter an informal fallacy known as Appealing to Ridicule? It sure is. Shouldn't all intelligent people denounce using an informal fallacy then? Shouldn't they instead take the moral and intellectual high ground? No, not at all. In some ways we just cannot help ourselves since some ideas seem that preposterous. When something cannot be taken seriously it deserves our laughter(Loftus (2013))[ix].

Portanto, não está em causa o produzir argumentos racionais e inteligentes para demonstrar que algumas ideias são falsas. Trata-se de passar logo à fase de as expor como ideias absurdas. Porquê? Porque o combate das ideias dá muito trabalho para quem considera que os outros não estão preparados para o acompanhar. Porque os outros não irão perceber ou aceitar. Porque os outros são inferiores intelectualmente. Porque os outros estão infectados por aquilo que o próprio Loftus apelidou de "vírus da mente":

«I have spent 40 years studying Christianity and my conclusion is that believers who seek to defend it are worth being laughed at. I laugh almost daily when reading something written by one of the top Christian apologists. They remind me of the story of the emperor who has no clothes on, really. I'm not kidding. Been there done that myself. Now I'm wearing clothes. I'm never going back to that nutty nudist camp for the mentally challenged who are all infected with the same virus of the mind.»  (Loftus (2013))[x].

Como é evidente, face a tudo quanto ficou exposto, este argumento merece-me tal respeito devocional que, da próxima vez que tiver uma virose, vou experimentar o tratamento com anedotas. Assim, talvez consiga expurgar o meu corpo e espírito dos seus males, da mesma forma que alguns ateus pretendem extinguir a religião.

João de Bianchi Villar





 [i] Bento XVI (2012), Discuso à Cúria Romana na Apresentação de Votos Natalícios (consultado em 26.06.2016 em http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2012/december/).
[ii] Paul Kurtz e Edwin H. Wilson (1973) Manifesto Humanista II (consultado em 26.06.2016 em http://www.humanismosecular.org/declaracao-humanista-secular).
[iii] Christopher Hitchens (2007), God Is Not Great: How Religion Poisons Everything.
[iv] Sam Harris (2004), The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason.
[v] Janine Burke (2010) apud Karl Jung (s.d.), Deuses de Freud: A Coleção de Arte do Pai da Psicanálise. Rio de Janeiro: Record.
[vi] Bertrand Russell (1952), Is There a God? The Collected Papers of Bertrand Russell, Vol. 11: Last Philosophical Testament, 1943–68. Routledge. pp. 547–548 (tradução livre).
[vii] Idem, pp. 143-144 (tradução livre).
[viii] Hemant Mehta (2014), Should We Mock Religion? (vídeo consultado no YouTube em 26.06.2016 em https://www.youtube.com/watch?v=tVMPS-P11Qs).
[ix] John Loftus (2013), Debunking Christianity: On Justifying the Use of Ridicule and Mockery (consultado em 26.06.2016 em http://debunkingchristianity.blogspot.pt/2013/01/on-justifying-use-of-ridicule-and.html)
[x] Idem.

sábado, 25 de abril de 2015

ANZAC DAY - 100TH ANNIVERSARY (25.04.2015)



Between 25 of April 1915 and 9 January 1916 the Çanakkale peninsula (from the Turkish Çanakkale Savaşı, actual Gelibolu) in Turkey, known as Gallipoli to the Allied Powers, was the scenery chosen to one of the bloodiest and, at the same time, senseless battles in human history.
All the battles have their share of blood, anguish and suffer, although some of them, like the Gallipoli campaign, the defeat of Gen Custer at Little Big Horn, or the Charge of the Light Brigade at the Crimean peninsula, are a cruel example of the loss of lives, serving no practical military purpose at all.
At Çanakkale/Gallipoli over half a million men from Turkish Fifth Army, the British Empire Mediterranean Expeditionary Force, and the French Oriental Expeditionary Force, were victims (dead or wounded) or presumed missing during this campaign, which purpose was to assume the control of the Dardanelles strait, a part of Turkish soil, and a vital access to the Aegean Sea (then to the Mediterranean Sea) from the considerable Russia's naval forces stationed in the Black Sea (at the time an ally to the British Empire in the WWI effort).
It was the last great victory of the declining Turkish Empire and it revealed to be a pointless loss of thousands of lives of soldiers, both sides, including the boys from ANZAC (Australia and New Zealand), which had their share of deaths and disappearances, in a scale never before endured by those particular nations.
Due to the number of victims still to be found and the territorial extent of the battle the Gallipoli peninsula still remains, as a whole, the sanctuary to those whom fought (and died) there, and to all the countries involved in these fierce events. In fact, to Aussies (Australians) and Kiwis (New Zealanders), it was also a time which become associated to the consolidation of their national identities, closely related to the subsequent process of independence of those two countries.
The father of the Turkish nation, Mustapha Kemal Ataturk, also one of Çanakkale/Gallipoli's commanders, wrote a poem about these events, now completing 100 years after their commencement, which stays, immortalized, in a local memorial. In this very special date, let us give our respects to the fallen ones, by remembering those words:
"Those heroes that shed their blood
And lost their lives.
You are now lying in the soil of a friendly country.
Therefore rest in peace.
There is no difference between the Johnnies
And the Mehmets to us where they lie side by side
Here in this country of ours.
You, the mothers,
Who sent their sons from far away countries
Wipe away your tears,
Your sons are now lying in our bosom
And are in peace
After having lost their lives on this land they have
Become our sons as well.
"

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Cantador


O Cantador! Que nome ideal para um destino! Ser o cantador, ser a voz da água e do vento, da rocha e da floresta, dos homens e dos monstros, dos infusórios e dos sóis, das nebulosas e dos átomos! Cantar o riso, o beijo, o olhar, a dor, a lágrima! Cantar o sangue impetuoso, as seivas genéricas, os fluidos radiantes, as marés vitais, as electricidades criadoras! Cantar as formas e as esssências, números que dizem ideias, linhas que desenham espíritos! Cantar a marcha heróica e resplandecente do lodo para o verme, do verme para o tigre, do tigre para o homem, do homem para o anjo, dos anjos para Deus!

(Guerra Junqueiro, Prosas Dispersas, Prefácio ao Livro do Cantador de Setúbal)

terça-feira, 14 de abril de 2015

Luz Terna e Suave


Luz terna, suave, no meio da noite, leva-me mais longe…
Não tenho aqui morada permanente: Leva-me mais longe…
1. Que importa se é tão longe, para mim, / A praia onde tenho de chegar,
Se sobre mim levar, constantemente, / Poisada a clara luz do teu olhar?
2. Nem sempre Te pedi como hoje peço / Para seres a luz que me ilumina;
Mas sei que ao fim terei abrigo e acesso / Na plenitude da tua luz divina.
3. Esquece os meus passos mal andados, / Meu desamor perdoa e meu pecado.
Eu sei que vai raiar a madrugada / E não me deixarás abandonado.
4. Se Tu me dás a mão, não terei medo, / Meus passos serão firmes no andar.
Luz terna, suave, leva-me mais longe: / Basta-me um passo para a Ti chegar.

(Cardeal Henry Newman)

domingo, 5 de abril de 2015

Bella Ciao


Acordei de manhã
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Acordei de manhã
E deparei-me com o invasor
Ó resistente, leva-me embora
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Ó resistente, leva-me embora
Porque sinto a morte a chegar.
E se eu morrer como resistente
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E se eu morrer como resistente
Tu deves sepultar-me
E sepultar-me na montanha
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E sepultar-me na montanha
Sob a sombra de uma linda flor
E as pessoas que passarem
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E as pessoas que passarem
Irão dizer-me: «Que flor tão linda!»
É esta a flor
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
É esta a flor do homem da Resistência
Que morreu pela liberdade

(tradução livre de um canção popular italiana, autor desconhecido; versão partigiana)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Saudade no Exílio




A Dor é o arado de Deus: rasga o corpo do homem, insinua-se até à alma para que o seu calor interior desperte e faça, dum lume amortecido, um vulcão, em maré de fogo, erguido para as Alturas. O povo de Deus é um campo arregoado pela Dor: também as vertentes das serras são penedias talhadas pelas torrentes e, em baixo, nos vales, vão florindo os salgueiros e os campos são jardins de perfumes, asas de borboleta... A Dor corta as almas em brutezas de penedias assomadiças e, ao fundo, vão tombar as lágrimas, acordando açucenas, lírios e jasmins... A Dor desse povo irá espalhar, pelos povos do seu cativeiro e emigração, a terra arada da nova esperança.

Leonardo Coimbra (1923), in Jesus

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Razões de Cão


Eis Loukanikos (em grego, Salsicha).

Imortalizado numa canção de David Rovics, o «The Riot Dog» foi a epítome das medidas anti-austeridade na Grécia.

Nunca ninguém saberá explicar completamente a razão pela qual, um cão de rua (vivia junto à célebre Praça Syntagma), se juntou a um dos lados da contenda. 

Porque é que este cão tomou partido, onde a paixão libertária se unia contra a frieza do proteccionismo económico? Porque é que deixou o conforto da mão que dá esmola, pela revolta dos que não tinham nada para lhe dar? Porque é que optou pelo protesto dos fracos, sem que lhe pedissem e sem ter querido nada em troca?

Razões de cão. Mas, razões de cão que qualquer pessoa com o privilégio de ter um amigo destes percebe, sem serem precisas mais palavras.

domingo, 20 de abril de 2014

Deixar-me Ir




Às vezes, é preciso deixar  as Pessoas partir.
Fugindo ao constante tropeçar nas memórias,
Uma espécie de roupa velha e ultrapassada,
Que já não serve para vestir no Presente,
Nem cabe num armário repleto de recordações.

Às, vezes, é preciso largar a lembrança dos nomes.
Como uma secretária prenha de papéis,
As lembranças são escritos que espreitam em cada gaveta cheia,
Cedo devoradas por uma traça saudosa,
Ébria de sede por lágrimas cada vez mais antigas e preciosas.

Às vezes, é preciso virar as costas ao Passado.
Abrir as páginas dessa espécie de álbum bafiento,
Deixando entrar um vento da mudança,
Vendo partir todas essas relíquias, em turbilhão,
Como velhas teias de amores perdidos que, por fim, se desvanecem.

Às vezes, temos de cortar laços mais antigos.
Podar mais cuidadosamente a árvore da Vida,
Trocando ramos caducos, bafientos e perdidos,
Pelos novos rebentos frágeis, mas auspiciosos,
Das folhas prometidas de um Futuro exuberante.
  
Às vezes, é preciso rasgar a partitura.
Há que gerar melodias diferentes, arrojadas,
É preciso escrever música numa pauta virgem,
Dedilhar toda uma nova escala de emoções,
Que se toque como uma sinfonia de redobrada Esperança.

Muitas vezes, as pessoas não partem,
São como roupas que se vestem sempre e sem o saber.
Muitas vezes, os nomes não largam,
Murmurando, silenciosos, em todos os bocados de papel.
Muitas vezes, o Passado permanece mesmo em frente,
Como numa foto que se repete por todo um álbum.
Muitas vezes, os laços não se desfazem,
Resistindo, profundos, como raízes da nossa própria árvore.
Muitas vezes, essa velha partitura ressoa, mesmo sem pauta,
Em todos os sons e em todas, mesmo que vagas, promessas de música.

Assim, quase sempre,
Formulo um desejo de nudeza,
Acendo uma fogueira de papéis.
Lanço esse álbum de uma falésia,
Envolto em todas as suas velhas raízes.
E, enquanto troco todos os sons pelo odor da maresia,
Largo-me em sinceros desejos de um,
Para sempre,

Deixar-me ir.

jbv

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Herança Jacente




Eu te entrego este corpo.
Palpitante de sonhos em comum,
Grávido de projectos e de futuros,
Tudo embrulhado com uma fitinha azul,
E papel de celofane.

Como brinde deste teu novo  corpo,
Desta tua nova propriedade solitária e devoluta,
Te faço solene promessa, também,
De a entregar com todos os seus cabelos brancos.

O tempo passou sobre nós,
Quase imperceptível, suave lembrança,
Um dia de cada vez,
Radiosa memória de cada dia acordado,
De cada beijo roubado à loucura do dia-a-dia.

Recebe, então, este corpo,
Esta obra que também é a tua,
Faz dela o teu jardim, uma flor para cuidares,
Enquanto a chuva nos molha e o sol nos percorre.

Um dia, bem longe se calhar,
Este corpo será apenas uma recordação,
O testemunho de toda uma vida,
Que apenas contigo quis partilhar.


jbv