segunda-feira, 27 de junho de 2016

O VÍRUS DO RIDÍCULO



O VÍRUS DO RIDÍCULO


Caro leitor ateu,

Vamos estabelecer um ponto de partida respeitando duas regras básicas para quem quer dialogar contigo: «1.ª) Este diálogo não tem como alvo a conversão, mas a compreensão. Nisto se distingue da evangelização, da missão. 2.ª) De acordo com isso, neste diálogo, ambas as partes permanecem deliberadamente na sua identidade própria, que, no diálogo, não põem em questão nem para si mesmo nem para os outros.» (Bento XVI (2012))[i] Neste sentido, nem tu pretenderás tornar-me ateu, nem eu tentarei converter-te ao que quer que seja. Ok?

Assim sendo, considerando a imagem acima, gostaria de te convidar a reflectir no seguinte:

- O que é que separa a inteligência superior da superioridade intelectual?

Salvo melhor opinião, a inteligência superior distingue-se por não se preocupar com a demonstração que é superior. Vive, sem precisar de anunciar aos outros que existem pessoas que não são assim tão inteligentes. Quando o faz, transpõe a barreira da superioridade intelectual e atribui a si própria a missão de demonstrar que produz melhores conclusões do que as dos outros. Ainda assim, na superioridade intelectual, há duas formas de estar perante os outros: a) Em diálogo, expondo argumentos em torno dos factos de que se dispõe, procurando que as conclusões diversas dos outros intelectos a que chegou possam ser alcançadas também por estes; b) Em troça, onde o objectivo continua a ser a demonstração dessas conclusões, não já pelo exercício argumentativo, mas antes pelo esforço em apresentar, face a um absurdo evidente, que existe uma falha hilariante no argumento alheio.

Ao dedicar-se à derradeira destas práticas - a troça - o superior intelectual já não se preocupa com a força racional dos argumentos mas com o peso emocional dos sentimentos e das pulsões sociais que todo o homem sente perante o seu semelhante. Assim, ao invés de abordar a dialéctica argumentativa do outro, decompondo-a com a força dos argumentos lógicos e bem demonstrados, prefere o ataque ao comportamento alheio, confrontando-o com a ideia do ridículo. O outro, de acordo com a tese da superioridade intelectual, ao tornar patente e visível determinado comportamento que é por demais absurdo, incorre em motivo de riso perante os outros. Riso esse, que por força das circunstâncias da própria prática do sujeito - o exercício da devoção, no caso vertente -  pretendia ser uma demonstração  de respeito e não uma mera brincadeira susceptível de tratamento jocoso. Ora, ao não perceber que o seu comportamento é ridículo e ao exteriorizar esse seu (supostamente) comportamento respeitoso, o outro incorre não só na troça perante a jocosidade da sua conduta mas também na estupidez. Na estupidez, porque não compreende a diferença entre respeito e brincadeira. Aquilo que ele pretendia levar a sério não pode ser tido como tal. E, por isso mesmo, ele é estúpido. Ou seja, é privado da inteligência que distingue a seriedade do mundo da fantasia. E essa mesma estupidez e ridículo, no entendimento da superioridade intelectual, não são susceptíveis de permanecer na esfera privada de cada um mas têm de ser para o domínio público. Porquê?

Por maioria de razão (e não de emoção) há três interpretações possíveis para a necessidade de se evidenciar publicamente um comportamento alheio. Em primeira instância, para o denunciar, porque está fora dos padrões sociais e culturais aceites e deve merecer pública censura, e para o influenciar, porque a prática do absurdo e da estupidez não facilitam a identificação social do sujeito, e subentende-se que ele, o referido sujeito, apesar de praticar a estupidez, deve ter raciocínio suficiente para perceber isso mesmo. Estas duas interpretações (a denúncia e a influência) podendo ser concomitantes, não são necessariamente negativas por si próprias pois buscam aquilo que o superior intelectual acha que é melhor para o sujeito: a abstenção de prática do absurdo e o refreamento da estupidez que deve permanecer ínsita e não exteriorizada e independentemente de poder ou não ser combatida ou reduzida no cerne mental do seu detentor.  Contudo, se à denúncia e à influência se aliar à troça, como é o caso vertente, procurando tornar hilariante a prática do sujeito, exerce-se aquela busca de glória pessoal  que Thomas Hobbes considerava ser a causa por detrás do humor e do divertimento. Ou seja, o riso e a gargalhada é uma reacção que a superioridade intelectual manifesta e que age pela comparação, tida por favorável, entre inteligência superior e os menos afortunados de intelecto. Assim, em segunda instância, já não basta a denúncia e a influência, mas também há que recorrer a uma terceira via de interpretação, a necessidade de vitória.

Mas, a vitória, por natureza, implica um combate. E, um combate utiliza armas para se produzir essa mesma vitória. Logo, a troça, ao ser utilizada para produzir a vitória, é uma arma. E as armas são sempre agressivas porque esgotam a sua utilidade ao provocar danos ao outro, neste caso conduzido à figura de um outro-adversário por se tratar de um combate. Danos esses não necessariamente físicos mas também psicológicos. No caso em apreço, a troça (pois que apela ao ridículo e alega a estupidez de uma prática), provoca o seu dano no sentimento de pertença (de identidade social) do indivíduo, que assim é confrontado com a existência de um dano na sua relação com os outros. O resultado obtido, a vitória sobre a prática devocional, será necessariamente produzida pela sua extinção por absurda, ridícula e estúpida.

Ao longo da nossa história têm sido sucessivos os exemplos em que a agressividade procura estabelecer um determinado resultado político-social ao apresentar alguns factos (mas emitindo outros) com o objectivo de encorajar uma determinada conclusão e apelando ao elemento emocional (e não racional) das mensagens que apresenta. Edward Bernays, em 1928, apelidou este fenómeno de Propaganda.

 A Propaganda está presente em todas as correntes de pensamento. Mesmo nas da religião e do Ateísmo. De um lado e do outro esgrimem-se argumentos que apelam quer à tolerância (o respeito, não pelo comportamento eventualmente absurdo, ridículo e estúpido de quem o pratica, mas pelo direito que alguém tem de o fazer sem interferir ou ser interferido pelos outros), quer à intolerância (os que não aceitam que certas práticas devam ser respeitadas). Fixando-nos na figura do pensamento ateísta, de onde deriva o cartoon em apreço, podemos encontrar exemplos de tolerância ou de intolerância, consoante atendamos aos seus argumentos de base e à forma como pretendem vê-los vingar na sociedade. No campo da tolerância ateísta produzem-se comentários que até um teísta com idêntica postura intelectual tem de aceitar como válidos para início de uma dialéctica construtiva:

«As religiões são fenómenos sociológicos penetrantes e os mitos religiosos têm persistido, longamente, na história humana. Apesar do facto de os seres humanos terem vindo a considerar as religiões como forma de elevação e consolo, não consideramos que suas afirmações teológicas sejam verdadeiras. As religiões têm dado tantos contributos negativos como positivos para o desenvolvimento da civilização humana. Embora tenham ajudado a construir hospitais e escolas e, no seu melhor, terem estimulado o espírito do amor e caridade, muitas causaram também sofrimento humano ao serem intolerantes com aqueles que não aceitaram os seus dogmas ou credos.» (Kurtz & Wilson (1973))[ii].

No segundo caso, o da intolerância ateísta, são muitos os exemplos daqueles que não se limitam a negar a experiência sobrenatural mas também põem em causa a subsistência da própria religião, enquanto «fenómeno sociológico» ou até enquanto «experiência que redirecciona e dá sentido à vida do ser humano» (Kurtz & Wilson (1973), idem), por considerarem que a religião tem um papel pernicioso na vida dos homens e das sociedades onde está presente e que compete a estes (e a estas) não se "acomodarem" perante a presença deste elemento tido por tóxico. «Religion poisons everything», como defende Hitchens perante o seu público (Hitchens (2007))[iii].

Na sequência do 11 de Setembro, no seu best-seller de 2004, «The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason», Sam Harris escrevia o seguinte:  «I hope to show that the very ideal of religious tolerance—born of the notion that every human being should be free to believe whatever he wants about God—is one of the principal forces driving us toward the abyss”» [iv]. Neste texto, mesmo utilizando metáforas muito ao jeito da religião (e.g. "abyss", que pode ser confundido com o local de danação de tantas crenças, o Inferno) o autor defende aquilo que se estende pelo resto do seu livro (e de tantos outros) e que é a ideia de terminar com a tolerância perante a religião, tida como fenómeno gerador de danos irreparáveis como será o da queda num qualquer abismo, real ou metafórico.

Ou seja, o que mudou não foram os argumentos (Deus não existe) mas sim a atitude perante a religião (a prática religiosa não deve ser tolerada). Neste domínio, como é lógico, há duas formas de tentar fazer valer os argumentos. O primeiro, o do diálogo intelectual, teria por objectivo  converter livremente a mente do praticante religioso para a  perniciosidade da sua prática devocional. Ou seja, transformar o devoto por dentro, retirando-lhe o argumento e a vontade de prosseguir na senda religiosa. Este argumento serve-se da inteligência superior e pretende tão somente utilizar a razão para alcançar a "verdade". Procura servir de inspiração a quem não tem os neurónios tão musculados para que possa também alcançar a sobredita "verdade". É um tipo de proselitismo perfeitamente legítimo e que em vez de apelar à adesão voluntária a uma religião, bem pelo contrário, procura fazer vingar uma ideia: o impacto negativo da prática religiosa perante si próprio e perante os outros. É esta a verdade que se pretende propagar. Não a inexistência de Deus que já nem sequer faz parte dos argumentos. Não se contraria a prática devocional por ausência do seu objecto mas sim pelas suas consequências nefastas. No segundo caso, a dialéctica é substituída pelo humor. Não se apela à compreensão voluntária dos argumentos mas ao juízo social em torno de uma prática que se tem por absurda: a devoção religiosa. O raciocínio e a vontade do praticante religioso já não são confrontados com a "verdade" mas são antes expostos apelando ao ridículo, ao absurdo e à estupidez (por levar a sério algo que obviamente não existe) de quem segue uma prática religiosa. E nada melhor para expor ao ridículo do que pôr a nu as contradições na conduta (voltaremos ao "nu" mais à frente). É o que em lógica se chama o argumento «ad hominem». Não se ataca aquilo em que o homem acredita, mas o próprio homem que acredita. Afinal, que credibilidade nos merece alguém que considera o Batman uma personagem de ficção e se prostra diante de uma Cruz vazia? Descredibilizando o praticante, assim se descredibiliza a prática em si. Já não é necessário o lento diálogo em torno da existência de Deus; basta a denúncia sobre a prática religiosa, acompanhada pela exposição ao ridículo, para se produzir a influência necessária que é o abandono da mesma.

Ora, tudo isto nos traz uma dificuldade suplementar. Se já não importa conhecer, analisar e confrontar as raízes do fenómeno religioso, ou seja a existência de Deus, como poderemos nós, de boa fé, afrontar as suas consequências, ou seja, a prática religiosa? Será porventura possível pôr em causa as marés sem negar primeiro o mar que as provoca? Ou, numa abordagem mais consensual, será possível fazer negar o amor de uma mãe, mostrando-o como absurdo, ridículo e estúpido, sem sequer nos preocuparmos em demonstrar que o filho objecto desse mesmo "amor" é uma criatura inexistente ou desprezível? Possível é, certamente. Basta considerarmos que os outros devem acreditar naquilo que lhes queremos transmitir sem necessidade de demonstração. Porque somos mais inteligentes. Porque somos superiores. Em suma, porque temos uma superioridade intelectual que produz argumentos que não necessitam de demonstração. Ou seja, os outros devem acreditar em nós, não pela racionalidade dos nossos argumentos, mas por uma questão de fé nas nossas qualidades intelectuais. A necessidade de fé é um pormenor interessante perante a essência do postulado ateísta. Não vos parece?

Continuando. Assim, de acordo com esta acepção, já não se mostra necessário sequer confrontar as histórias por detrás de Batman e da Cruz para se tentar estabelecer onde é que estão as eventuais semelhanças entre estes "mitos". Que é por aí que uma boa argumentação deveria ter começado. Mitos estes,  que justificam que seja absurdo, ridículo e estúpido o colocar em causa a primeira história (o Batman) enquanto se acredita, pior ainda, enquanto se presta homenagem à segunda narrativa (a Cruz). É esta a mensagem de fundo do cartoon agora analisado.

A melhor forma de recuperar o argumento da inferioridade intelectual da prática religiosa é o retomar as palavras de Karl Jung “a base fundamental para a religião é o desamparo infantil[v]. Ou seja, na fragilidade do raciocínio da infância se hão-de encontrar as raízes da devoção religiosa. No mesmo lugar onde se encontram as histórias do Batman. Então, se uma e outra têm a mesma origem, no imaginário da criança que se sente insegura, para quê distinguir as duas histórias como o pressuposto crente faz no cartoon? Eis a essência da questão colocada por este.

Mas é precisamente aqui que o argumento incorre em algumas questões: 1.ª A história de Batman e da Cruz são semelhantes? 2.ª São ambas personagens de ficção, ou da realidade? 3.ª A mensagem transmitida é a mesma?

E, por último,

4.ª Mesmo que sejam semelhantes  é o apelo à necessidade de identidade social que fará com que a prática devocional seja preterida, por ser absurda, ridícula e estúpida? 5.ª Ou será preferível utilizar o (eventual) argumento racional para que se destrua, de vez, a prática religiosa por inexistência superveniente do seu objecto devocional, ao invés de se ridicularizarem as suas manifestações e tratando-nos como criancinhas incapazes de discernir a verdade?

Na minha opinião pessoal prefiro a abordagem de Russell. Nunca pretendeu pôr em causa a tolerância perante quem pratica uma determinada religião. Pretendeu, tão somente, pôr em causa o preconceito de quem não aceita a refutação das suas «verdades». Seja porque elas são inalcançáveis para lá da demonstração, seja porque essa pessoa só encontra o vazio onde os outros vêm alguma coisa:

«Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos cépticos refutar os dogmas apresentados — em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice.» (Russell (1952)) [vi].

Efectivamente, não existe qualquer deficiência visível no pensamento de Russell. Do mesmo modo, não só é impossível demonstrar a presença do bule de chá chinês como também, a própria ciência no seu estado da arte,  se encontra desprovida de meios para  provar a sua inexistência. Agora, não compete aos primeiros, aqueles que não acreditam no bule de chá chinês, gozar com os segundos (os que acreditam no bule de chá chinês) só porque a simples ideia de um bule de chá chinês é potencialmente hilariante. Há muitas coisas que são verdadeiras e hilariantes. Por exemplo, ninguém consegue fazer cócegas a si mesmo (fato demonstrado e que tem a ver com o nosso cerebelo). Compete, isto sim, aos primeiros, aqueles que não acreditam no bule de chá chinês, demonstrar que algo em que os outros crêem é desprovido de sentido por inutilidade superveniente (inexistência do bule, neste caso) ou por força da comprovação dos efectivos males que provoca acreditar na existência do bule. Não pelo apelo à ridicularização em torno do bule. Estamos saciados? Ou é precisa mais uma chávena de chá?

Voltando um bocadinho atrás e já que estamos a falar do Batman e da Cruz, colocando-as no mesmo patamar da conversa, gostava de recordar uma pequena história. Numa das novelas de ficção científica de C. S. Lewis («Aquela Força Medonha», 1945) há uma cena em que um activista não-religioso, Mark, recebe instruções para pisotear um crucifixo muito grande, como parte do seu exercício em prol da não-religiosidade. Visto que Mark é um não-Cristão, ele fica espantado com a necessidade de se proceder a esse exercício e considera que este é, por si só, um autêntico acto de superstição. O professor que conduz o exercício, o Senhor Frost, estabelece com ele um diálogo bastante interessante e que explica muito bem esta forma de se extirpar a religião da sociedade:

«Meanwhile, in the Objective Room, something like a crisis had developed. As soon as they arrived there Mark saw that the table had been drawn back. On the floor lay a crucifix, almost life-size, a work in the Spanish tradition, ghastly and realistic. " We have half an hour to pursue our exercises," said Frost. Then he instructed Mark to trample on it and insult it in other ways. Now, whereas Jane had abandoned Christianity in early childhood, along with fairies and Santa Claus, Mark had never believed it at all. At this moment, therefore, it crossed his mind for the first time that there might conceivably be something in it. Frost, who was watching him carefully, knew perfectly well that this might be the result of the present experiment. But he had no choice. Whether he wished it or not, this sort of thing was part of the initiation. " But, look here," said Mark. " What is it? " said Frost. " Pray be quick." " This," said Mark, " this is all surely a pure superstition." "Well?" " Well, if so, what is there objective about stamping on the face? Isn't it just as subjective to spit on a thing like this as to worship it? " " That is superficial. If you had been brought up in a non-Christian society, you would not be asked to do this. Of course it is a superstition: but it is that particular superstition which has pressed upon our society for many centuries. It can be experimentally shown that it still forms a dominant system in the subconscious of many whose conscious thought appears to be wholly liberated. An explicit action in the reverse direction is therefore a necessary step towards complete objectivity. We find in practice that it cannot be dispensed with."» (Russell (1952))[vii].

Como se vê, pelo exemplo em apreço, a atitude perante uma Cruz tanto pode assumir a forma de devoção contemplativa  como de devoção destrutiva. Tudo depende do tipo de convicção de quem a pratica. Subsiste, contudo, um factor que une ambas as condutas diametralmente opostas. Trata-se da necessidade de adoptar comportamentos em torno dos símbolos, enquanto expressão de um determinado sentimento que eles nos inspiram. E a forma que se encontra para eliminar aquilo que se considera ser um mito pode, e acaba por ser no caso vertente, tão supersticiosa como a devoção ao suposto mito em causa.

 Neste sentido, ao pretender encenar a destruição da Cruz, enquanto expressão devocional de toda uma comunidade (a Cristã), nada impede que ela não se faça por formas mais virtuais como sejam a sua submissão ao ridículo, por parte de uma outra comunidade (a ateia). Não se pisoteia a Cruz fisicamente mas tenta-se influenciar a atitude perante ela para que se produza um afastamento, uma indiferença ou até uma mudança de sentimento, o que vai dar ao mesmo. É um comportamento meramente grupal. Os ateus não gozam com o ateísmo, pois consideram-no uma coisa séria. Mas gozam com a religião pois consideram-na uma coisa digna de chacota. Aliás, quanto mais gozarem, mais demonstram a sua superioridade intelectual e se afirmam no seio da comunidade que aprecia esse mesmo gozo. também aqui se coloca a questão da identidade social. Como afirma o conhecido ateu Herman Mehta «We should absolutely mock religion»[viii]. A religião, nem que seja por uma necessidade de reconhecimento inter pares,  é assim o "veneno" que se deve atacar não por argumentos racionais mas por piadas, que recebem bom acolhimento e predispõem à aceitação grupal por parte de quem a produz. É um bocado a ideia do bobo da corte, que era o mais inteligente habitante do castelo, e que encontrava a sua identificação no meio envolvente pela finura e mordacidade dos seus comentários. Não por encetar diálogos filosóficos ou teológicos. Não. Pura e simplesmente porque adaptava o seu discurso a quem ele próprio considerava que só os aceitaria mediante argumentos que apelam ao sentimento. Neste caso a piada sobre os outros. Porque os outros, naturalmente, não eram tão inteligentes como o bobo. Não perceberiam se o bobo utilizasse argumentos sérios e inteligentes. Mas, o bobo precisava deles para viver. E, não queria ser expulso por ser maçador. Queria sobreviver e ser recompensado por ser divertido. Escreve John Loftus:

«we have earned the right to use it because we have produced the arguments. That is, because we know Christianity is a delusion, and since deluded people cannot usually be argued out of their faith because they were never argued into it in the first place, the use of persuasion techniques like ridicule are rationally justifiable. So satire, ridicule and mockery are weapons that should be in our arsenal in this important cultural war of ideas (...) Isn't using laughter an informal fallacy known as Appealing to Ridicule? It sure is. Shouldn't all intelligent people denounce using an informal fallacy then? Shouldn't they instead take the moral and intellectual high ground? No, not at all. In some ways we just cannot help ourselves since some ideas seem that preposterous. When something cannot be taken seriously it deserves our laughter(Loftus (2013))[ix].

Portanto, não está em causa o produzir argumentos racionais e inteligentes para demonstrar que algumas ideias são falsas. Trata-se de passar logo à fase de as expor como ideias absurdas. Porquê? Porque o combate das ideias dá muito trabalho para quem considera que os outros não estão preparados para o acompanhar. Porque os outros não irão perceber ou aceitar. Porque os outros são inferiores intelectualmente. Porque os outros estão infectados por aquilo que o próprio Loftus apelidou de "vírus da mente":

«I have spent 40 years studying Christianity and my conclusion is that believers who seek to defend it are worth being laughed at. I laugh almost daily when reading something written by one of the top Christian apologists. They remind me of the story of the emperor who has no clothes on, really. I'm not kidding. Been there done that myself. Now I'm wearing clothes. I'm never going back to that nutty nudist camp for the mentally challenged who are all infected with the same virus of the mind.»  (Loftus (2013))[x].

Como é evidente, face a tudo quanto ficou exposto, este argumento merece-me tal respeito devocional que, da próxima vez que tiver uma virose, vou experimentar o tratamento com anedotas. Assim, talvez consiga expurgar o meu corpo e espírito dos seus males, da mesma forma que alguns ateus pretendem extinguir a religião.

João de Bianchi Villar





 [i] Bento XVI (2012), Discuso à Cúria Romana na Apresentação de Votos Natalícios (consultado em 26.06.2016 em http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2012/december/).
[ii] Paul Kurtz e Edwin H. Wilson (1973) Manifesto Humanista II (consultado em 26.06.2016 em http://www.humanismosecular.org/declaracao-humanista-secular).
[iii] Christopher Hitchens (2007), God Is Not Great: How Religion Poisons Everything.
[iv] Sam Harris (2004), The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason.
[v] Janine Burke (2010) apud Karl Jung (s.d.), Deuses de Freud: A Coleção de Arte do Pai da Psicanálise. Rio de Janeiro: Record.
[vi] Bertrand Russell (1952), Is There a God? The Collected Papers of Bertrand Russell, Vol. 11: Last Philosophical Testament, 1943–68. Routledge. pp. 547–548 (tradução livre).
[vii] Idem, pp. 143-144 (tradução livre).
[viii] Hemant Mehta (2014), Should We Mock Religion? (vídeo consultado no YouTube em 26.06.2016 em https://www.youtube.com/watch?v=tVMPS-P11Qs).
[ix] John Loftus (2013), Debunking Christianity: On Justifying the Use of Ridicule and Mockery (consultado em 26.06.2016 em http://debunkingchristianity.blogspot.pt/2013/01/on-justifying-use-of-ridicule-and.html)
[x] Idem.

sábado, 25 de abril de 2015

ANZAC DAY - 100TH ANNIVERSARY (25.04.2015)



Between 25 of April 1915 and 9 January 1916 the Çanakkale peninsula (from the Turkish Çanakkale Savaşı, actual Gelibolu) in Turkey, known as Gallipoli to the Allied Powers, was the scenery chosen to one of the bloodiest and, at the same time, senseless battles in human history.
All the battles have their share of blood, anguish and suffer, although some of them, like the Gallipoli campaign, the defeat of Gen Custer at Little Big Horn, or the Charge of the Light Brigade at the Crimean peninsula, are a cruel example of the loss of lives, serving no practical military purpose at all.
At Çanakkale/Gallipoli over half a million men from Turkish Fifth Army, the British Empire Mediterranean Expeditionary Force, and the French Oriental Expeditionary Force, were victims (dead or wounded) or presumed missing during this campaign, which purpose was to assume the control of the Dardanelles strait, a part of Turkish soil, and a vital access to the Aegean Sea (then to the Mediterranean Sea) from the considerable Russia's naval forces stationed in the Black Sea (at the time an ally to the British Empire in the WWI effort).
It was the last great victory of the declining Turkish Empire and it revealed to be a pointless loss of thousands of lives of soldiers, both sides, including the boys from ANZAC (Australia and New Zealand), which had their share of deaths and disappearances, in a scale never before endured by those particular nations.
Due to the number of victims still to be found and the territorial extent of the battle the Gallipoli peninsula still remains, as a whole, the sanctuary to those whom fought (and died) there, and to all the countries involved in these fierce events. In fact, to Aussies (Australians) and Kiwis (New Zealanders), it was also a time which become associated to the consolidation of their national identities, closely related to the subsequent process of independence of those two countries.
The father of the Turkish nation, Mustapha Kemal Ataturk, also one of Çanakkale/Gallipoli's commanders, wrote a poem about these events, now completing 100 years after their commencement, which stays, immortalized, in a local memorial. In this very special date, let us give our respects to the fallen ones, by remembering those words:
"Those heroes that shed their blood
And lost their lives.
You are now lying in the soil of a friendly country.
Therefore rest in peace.
There is no difference between the Johnnies
And the Mehmets to us where they lie side by side
Here in this country of ours.
You, the mothers,
Who sent their sons from far away countries
Wipe away your tears,
Your sons are now lying in our bosom
And are in peace
After having lost their lives on this land they have
Become our sons as well.
"

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Cantador


O Cantador! Que nome ideal para um destino! Ser o cantador, ser a voz da água e do vento, da rocha e da floresta, dos homens e dos monstros, dos infusórios e dos sóis, das nebulosas e dos átomos! Cantar o riso, o beijo, o olhar, a dor, a lágrima! Cantar o sangue impetuoso, as seivas genéricas, os fluidos radiantes, as marés vitais, as electricidades criadoras! Cantar as formas e as esssências, números que dizem ideias, linhas que desenham espíritos! Cantar a marcha heróica e resplandecente do lodo para o verme, do verme para o tigre, do tigre para o homem, do homem para o anjo, dos anjos para Deus!

(Guerra Junqueiro, Prosas Dispersas, Prefácio ao Livro do Cantador de Setúbal)

terça-feira, 14 de abril de 2015

Luz Terna e Suave


Luz terna, suave, no meio da noite, leva-me mais longe…
Não tenho aqui morada permanente: Leva-me mais longe…
1. Que importa se é tão longe, para mim, / A praia onde tenho de chegar,
Se sobre mim levar, constantemente, / Poisada a clara luz do teu olhar?
2. Nem sempre Te pedi como hoje peço / Para seres a luz que me ilumina;
Mas sei que ao fim terei abrigo e acesso / Na plenitude da tua luz divina.
3. Esquece os meus passos mal andados, / Meu desamor perdoa e meu pecado.
Eu sei que vai raiar a madrugada / E não me deixarás abandonado.
4. Se Tu me dás a mão, não terei medo, / Meus passos serão firmes no andar.
Luz terna, suave, leva-me mais longe: / Basta-me um passo para a Ti chegar.

(Cardeal Henry Newman)

domingo, 5 de abril de 2015

Bella Ciao


Acordei de manhã
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Acordei de manhã
E deparei-me com o invasor
Ó resistente, leva-me embora
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
Ó resistente, leva-me embora
Porque sinto a morte a chegar.
E se eu morrer como resistente
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E se eu morrer como resistente
Tu deves sepultar-me
E sepultar-me na montanha
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E sepultar-me na montanha
Sob a sombra de uma linda flor
E as pessoas que passarem
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E as pessoas que passarem
Irão dizer-me: «Que flor tão linda!»
É esta a flor
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
É esta a flor do homem da Resistência
Que morreu pela liberdade

(tradução livre de um canção popular italiana, autor desconhecido; versão partigiana)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Saudade no Exílio




A Dor é o arado de Deus: rasga o corpo do homem, insinua-se até à alma para que o seu calor interior desperte e faça, dum lume amortecido, um vulcão, em maré de fogo, erguido para as Alturas. O povo de Deus é um campo arregoado pela Dor: também as vertentes das serras são penedias talhadas pelas torrentes e, em baixo, nos vales, vão florindo os salgueiros e os campos são jardins de perfumes, asas de borboleta... A Dor corta as almas em brutezas de penedias assomadiças e, ao fundo, vão tombar as lágrimas, acordando açucenas, lírios e jasmins... A Dor desse povo irá espalhar, pelos povos do seu cativeiro e emigração, a terra arada da nova esperança.

Leonardo Coimbra (1923), in Jesus

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Razões de Cão


Eis Loukanikos (em grego, Salsicha).

Imortalizado numa canção de David Rovics, o «The Riot Dog» foi a epítome das medidas anti-austeridade na Grécia.

Nunca ninguém saberá explicar completamente a razão pela qual, um cão de rua (vivia junto à célebre Praça Syntagma), se juntou a um dos lados da contenda. 

Porque é que este cão tomou partido, onde a paixão libertária se unia contra a frieza do proteccionismo económico? Porque é que deixou o conforto da mão que dá esmola, pela revolta dos que não tinham nada para lhe dar? Porque é que optou pelo protesto dos fracos, sem que lhe pedissem e sem ter querido nada em troca?

Razões de cão. Mas, razões de cão que qualquer pessoa com o privilégio de ter um amigo destes percebe, sem serem precisas mais palavras.

domingo, 20 de abril de 2014

Deixar-me Ir




Às vezes, é preciso deixar  as Pessoas partir.
Fugindo ao constante tropeçar nas memórias,
Uma espécie de roupa velha e ultrapassada,
Que já não serve para vestir no Presente,
Nem cabe num armário repleto de recordações.

Às, vezes, é preciso largar a lembrança dos nomes.
Como uma secretária prenha de papéis,
As lembranças são escritos que espreitam em cada gaveta cheia,
Cedo devoradas por uma traça saudosa,
Ébria de sede por lágrimas cada vez mais antigas e preciosas.

Às vezes, é preciso virar as costas ao Passado.
Abrir as páginas dessa espécie de álbum bafiento,
Deixando entrar um vento da mudança,
Vendo partir todas essas relíquias, em turbilhão,
Como velhas teias de amores perdidos que, por fim, se desvanecem.

Às vezes, temos de cortar laços mais antigos.
Podar mais cuidadosamente a árvore da Vida,
Trocando ramos caducos, bafientos e perdidos,
Pelos novos rebentos frágeis, mas auspiciosos,
Das folhas prometidas de um Futuro exuberante.
  
Às vezes, é preciso rasgar a partitura.
Há que gerar melodias diferentes, arrojadas,
É preciso escrever música numa pauta virgem,
Dedilhar toda uma nova escala de emoções,
Que se toque como uma sinfonia de redobrada Esperança.

Muitas vezes, as pessoas não partem,
São como roupas que se vestem sempre e sem o saber.
Muitas vezes, os nomes não largam,
Murmurando, silenciosos, em todos os bocados de papel.
Muitas vezes, o Passado permanece mesmo em frente,
Como numa foto que se repete por todo um álbum.
Muitas vezes, os laços não se desfazem,
Resistindo, profundos, como raízes da nossa própria árvore.
Muitas vezes, essa velha partitura ressoa, mesmo sem pauta,
Em todos os sons e em todas, mesmo que vagas, promessas de música.

Assim, quase sempre,
Formulo um desejo de nudeza,
Acendo uma fogueira de papéis.
Lanço esse álbum de uma falésia,
Envolto em todas as suas velhas raízes.
E, enquanto troco todos os sons pelo odor da maresia,
Largo-me em sinceros desejos de um,
Para sempre,

Deixar-me ir.

jbv

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Herança Jacente




Eu te entrego este corpo.
Palpitante de sonhos em comum,
Grávido de projectos e de futuros,
Tudo embrulhado com uma fitinha azul,
E papel de celofane.

Como brinde deste teu novo  corpo,
Desta tua nova propriedade solitária e devoluta,
Te faço solene promessa, também,
De a entregar com todos os seus cabelos brancos.

O tempo passou sobre nós,
Quase imperceptível, suave lembrança,
Um dia de cada vez,
Radiosa memória de cada dia acordado,
De cada beijo roubado à loucura do dia-a-dia.

Recebe, então, este corpo,
Esta obra que também é a tua,
Faz dela o teu jardim, uma flor para cuidares,
Enquanto a chuva nos molha e o sol nos percorre.

Um dia, bem longe se calhar,
Este corpo será apenas uma recordação,
O testemunho de toda uma vida,
Que apenas contigo quis partilhar.


jbv 

domingo, 6 de outubro de 2013

Decantação





Oh, tu, diz-me como fazes,
Vejo-te acelerar por essa estrada fora,
Os cavalos puro-sangue da tua besta mecanizada,
Roncando suavemente no delírio de tantos cifrões.

Oh, tu, diz-me como fazes,
A suave seda que acaricia o teu rosto,
O gélido toque de platina do anel,
Na pureza silenciosa de um diamante coruscante.

Oh, tu, diz-me como fazes,
As janelas viradas para o mar,
Dessa moradia grandiosa e impoluta,
Que respiras, privadamente, um só momento do ano.

Oh, tu, diz-me como fazes,
Com o braço despreocupadamente estendido,
Ao licitar nesse leilão rigorosamente selecto,
Mais um sentimento envolto na sua moldura dourada.

Oh, tu, diz-me como fazes,
Quando partes e quando chegas,
Em viagens fascinantes, internacionais,
No turbilhão desse espaço aéreo privado.

Oh, tu, diz-me como fazes,
No dealbar desse momento derradeiro,
Em que as lágrimas já não são as tuas,
Onde o frio e anónimo buraco te devora.

Oh, tu, não me digas o que não sabes,
Pois a terra é pesada e muda,
Num processo de secreta e eterna alquimia,
Em que separa todos os ossos dos seus tostões.

jbv

sábado, 18 de maio de 2013

Porta de Embarque




Caminhantes, pelas estradas da vida,
Frutos da soma de todos os afectos e de todos os amores,
Transportando os sorrisos e amizades que por nós se cruzaram,
Algum dia nos vemos sentados num banco muito especial,
Num lugar muito nosso e com a reserva desde há muito colocada.

As malas estão sempre feitas, a escova de dentes bem arrumada,
Dobramos cuidadosamente as roupas favoritas,
Guardamos, em papel de celofane, os sonhos por realizar.
Numa caixinha vai também guardado o primeiro beijo inocente,
E pomos uma fitinha de seda para embrulhar aquele nosso primeiro amor.

Enquanto esperamos pela viagem,
O ecrã enche-se de imagens conhecidas,
A memória da areia fustigando o rosto,
O som daquela gargalhada ao teu lado,
A corrida para não perdermos o tal comboio,
As pedras que se enfiaram nas botas pelos trilhos daquela montanha,
Ou até a lembrança dessa cama desfeita num quarto de Hotel.

Os nossos filhos.
Não foste quem os viu primeiro.
Tive o privilégio de ter chegado à tua frente,
Para contemplar, num lampejo perene,
Todas as suas esperanças ou certezas,
As suas verdades ou desilusões.
Revejo-os agora em dois retratos muito lindos,
Ainda pensei guardá-los na mala,
No meio de tantas recordações de uma vida completa,
Mas, tal como a força e doçura do teu olhar,
Vão guardados em lugar de destaque,
Colocados numa carteira especial,
Pois ele há coisas de que a gente nunca se separa.

Vejo nitidamente um rosto,
Uma sombra diáfana do meu passado,
Da qual não guardei vídeo ou daguerreótipo.
A sua mão estendida em todos os continentes,
O seu olhar triste mas esperançoso,
Tal símbolo de uma pobreza universal.
Dei-lhe a mão.
Coloquei os meus lábios na sua testa,
E quis levar comigo todas as suas dores.
Mas nessa nave que eu pilotava,
Não poderia caber todo o Universo de quem sofre.
Fiz o que pude. Levei quem podia.

Chegou a hora.
A Porta de Embarque está aberta.
Parto para essa desconhecida viagem,
Cheio de dúvidas e de nenhuma certeza.
Revejo o passado no meu futuro,
E chamo ao presente um momento derradeiro.
Não sei para onde vai este avião,
Mas tenho a certeza que é um avião.
Pois tem asas e aponta para o Céu,
Esse mesmo Céu,
Para onde sempre dirigi todos os meus sonhos e ilusões.

jbv

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Algures no Tempo...






Algures no Tempo...

Algures no Tempo eu sou feliz.
No intervalo das gotas de chuva,
Na suave brisa que sopra antes da tempestade,
No exacto momento em que a folha se separa da árvore.

Permaneço em mudo silêncio nestes breves instantes,
Eternidades fugidias no reino dos segundos,
Tornadas em grãos de areia e perdidas no sopro da vida.

Há uma mensagem que me espera nestes momentos,
Um suave toque de marfim e de ébano,
Que flui pelas teclas de um piano qualquer.

Muitas histórias são contadas por estas vidas tocadas,
Oiço crónicas dedilhadas da Esperança Humana,
Sempre recriadas na sonata do nascimento de cada criança.

Sou, e sempre serei, esta criança nova,
Esse ser que desponta e acredita,
E que do passado quer fazer uma promessa do amanhã.

Um dia, tenho Fé,
O sorriso será certeza, e o abraço, compromisso.

Algures no Tempo eu sou feliz.
No momento de todos estes instantes reunidos,
No tempo em que da noite se fará dia.

JBV

O Princípio da Infabilidade Catedrática Abalado



"Thomas Herndon, doutorando em Economia, não acreditou quando descobriu o erro de Rogoff e Reinhart e chamou a namorada que o confirmou. No início, também os professores não acreditaram em Herndon."

Nunca percebi muito bem porque é que a Academia (de Platão) e o Liceu (de Aristóteles) foram hierarquizados de forma diferente, resultando numa subalternidade entre estes dois níveis de ensino. Efectivamente, na sua origem aristotélica, o Liceu podia ser considerado mais abrangente do que a própria Academia platónica, pois até dispunha de níveis de profundidade de conhecimento que obrigaram a criar uma espécie de "níveis", com a separação esotérica e exotérica do mesmo.

Na sua essência, podemos considerar que eram dois espaços de liberdade de pensamento, onde o mestre também aprendia com os alunos. Nos dias de hoje, para quem não sabe, muitas situações semelhantes à descrita no artigo (infra) são tratadas de forma cruel e autoritária; ou seja, com algumas excepções, mesmo em estudos graduados (Mestrado, Doutoramento, Pós-Doutoramento) é frequente o franzir de sobrolho (no mínimo) quando o discente põe em causa conclusões do docente.
  
Ou seja, porfiadas vezes, a Academia é um sistema hierárquico, ditado pelo "reconhecimento" inter pares e que se sobrepõe à própria capacidade intelectual, de investigação, à superior competência e/ou talento que pode esta presente em determinados alunos, em detrimento ou em quantidade superior à do próprio mestre! Por vezes, não há "Quociente Emocional" que sobreviva a alguns a alguns professores catedráticos.

O exemplo mais expressivo que me vem à memória é o de Joseph Ratzinger (provavelmente, o mais brilhante e prolífico teólogo dos últimos oitocentos anos): em 1953, já doutorado, foi forçado a alterar a sua tese "A Teologia da História em São Boaventura" para poder aceder à agregação universitária (grau de professor catedrático); isto devido aos supostos aspectos "inovadores" da referida tese e que mereceram a censura de um professor qualquer de que a história não guarda memória.

Mais exemplos fossem precisos...


Elaborado após a leitura de um Artigo do Jornal de Negócios de 18 de Abril de 2013, intitulado “Como um estudante pôs em causa o trabalho de economistas prestigiados
(http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/como_um_estudante_pos_em_causa_o_trabalho_de_economistas_prestigiados.html)